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segunda-feira, 4 de julho de 2011

Sistemas Construtivos Coloniais






As técnicas construtivas relacionam-se mais diretamente com os programas sociais, isto é, para quem está sendo feito, do que com que é feito. Ex: um telhado para uma paróquia e para uma simples casa de farinha, os quais passam pelos mesmos desafios naturais.


Construções destinadas a amparar a produção colonial de exportação


Primeiramente Galpões = grandes espaços cobertos, abertos ou fechados, respectivamente com ou sem as paredes periféricas. Armazenavam produtos da terra na espera dos navios para transportá-los.
Bem parecidos com estes galpões,desde o fim do séc XVIII são os abrigos provisórios para tropas de burros e cargas.
Com a instalação de uma economia promissora, como a produção açucareira, superior à extrativa de produtos tropicais, obras mais duradouras eram construídas e de grande porte, embora estes inicias não resistiram.
Nos engenhos maiores os galpões eram retangulares construídos com pilares de tijolos queimados. Os pilares periféricos podiam ser arcarias de tijolos e os internos e isolados, de esteio. Conformando um telhado geralmente sem tesoura, devido à abundância de madeira de grande porte.
Aquedutos para movimentar rodas d'água:Técnica hidráulica portuguesa trazida e realizada também em grande porte nos engenhos, cujos motores das rodas são os mais eficientes energeticamente.
Outro tipo foram aquedutos de vazão constante e suave (lâmina d'água) que não danificam o conduto e instalados diretamente no solo, tentando acompanhar as curvas de nível.
Estudo sistemático sobre aquedutos encontra-se em SP, onde além da utilização para rodas d'água também se usou abundantemente para lavagem dos grãos. 
Surpreende-nos os aquedutos de cantaria de pedra por testarem uma qualificação profissional - enquanto as aberturas das casas da elite eram em madeira - e também o assentamento (supõe-se uma declividade que não ultrapasse 1,5cm/m de comprimento = deslocamento suave da lâmina d'água).
A proeficiência de tradicionais carpinteiros mecânicos metropolitanos dotou a colônia de milhares de rodas d'água de madeira, até meados do séc XX, cujos fossos (cavoucos) eram geralmente de alvenaria de pedra irregular com espessura mínima de 80cm, o que remete a Vitrúvius, o qual dizia que a melhor maneira de estruturar-se uma parede ou muro resistente, é construir com pedras irregulares de variados tamanhos pois encaixam-se melhor (multiplicidade de ângulos de justaposição).
A produção de açúcar concentrou-se nos primeiros séculos próximo ao litoral, pois o transporte para embarque no Nordeste era feito por barcos em rios costeiros navegáveis. Razão pela qual não se estabeleceram estradas bem cuidadas. Os portos devem ter sido executados como a mesma qualidade técnica já falada baseado em pouquíssimos resquícios destes.
Os portos semelhantes aos romanos - muralha de cantaria de pedra junto ao rio ou mar, com enchimento para nivelar uma plataforma e lajeado sobre este, tanto horizontalmente como nas rampas - passou por problemas de impermeabilização, pelas condições climáticas e/ou qualidade da argamassa de acomodação e ligação das pedras, utilizando-se com êxito borra de óleo de baleia para garantir a estanqueidade das estruturas, pois afirma-se que edificações antigas de boa qualidade utilizavam esse aglomerante.
Os Fortes, situados de maneira a proteger a barra dos portos naturais, foram construídos com técnicas aprimoradas : cortinas de pedra e muralhas de terra, baixas, com vistas à nova artilharia de pólvora. Entretanto, fracassaram em impedir ações militares de longo alcance por voltarem-se contra operações de corso e pirataria isoladas, defendo mais a produção estocada que a terra e a sociedade.
O crescimento do povoado dos "portugueses" foi maior garantia de estabilidade do Império no Brasil, porém as construções militares, ainda que bem construídas e intactas até o séc XX, quando desativadas, foram sempre mal equipadas e insuficientes para garantir a segurança da população.
Os caminhos terrestres eram tributários das veredas e caminhos abertos por índios e mamelucos; as estradas de terra eram percorridas percorridas por cavaleiros, pedestres e carros de boi(único veículo de rodas comum a todo território).
As precárias pontes e vaus (ponto onde, numa corrente de água, se pode passar a pé ou a cavalo) possuiam longarinas (vigas longitudinais que assentam o tabuleiro - pavimento de uma ponte)e esteio ( escora) de madeira e desapareceram . Pontes duráveis somente nos centros urbanos no século XVII : geometria elegante em SJDR, OP e Tiradentes sugerindo o aperfeiçoamento da técnica construtiva romana nas fiadas internas dos arcos e pilares em forma de barca.
Calçamento só era feito em vilas e cidades mais ricas e revelam similaridade com calçamentos romanos.
Notório caminho de ligação da região açúcareira paulista ao porto de Santos possui estudo sistemático = revestimento de pedras irregulares, ajustadas em função de lancis, colocados no centro da estrada, sobre uma sub-base de areia e cascalho, com inclinação de base voltada para esse listão central (capistrana).
A preocupação com saneamento básico não assumia o mesmo nível das ruas e pontes de pedras, sendo a saúde pública uma das páginas mais sombrias da época colonial. Uma das únicas atitudes tomadas fora a localização afastada de terrenos mal-cheirosos e atraídos pela abundância de água, após um período inicial. 
Não fora por falta de proeficiência técnica que deixou de ser realizada a adução de água urbana. Somente um aqueduto urbano de grandes proporções foi construído durante todo o período, porém demorando 150 anos para ser concluído e já no fim do séc XVII apresentando vazão insuficiente.Aquedutos menores finalizavam seu percurso em chafarizes de onde os aguadeiros recolhiam água em baldes para levar para as casas particulares.
Esgoto e dejetos: respectivamente, encaminhados para cursos d'água (ruas formando calhas em direção aos rios) e deixados em grandes barris os quais eram recolhidos por escravos à noite e despejados no ponto mais próximo do rio, ou acumulados em "fossas negras".
Ouro Preto impressiona pela quantidade de chafarizes (construídos em menos de cem anos) e sua qualidade técnica e artística, respectivamente: devido ao fato de se utilizar escravos para serviços relacionados ao ouro em vez de transporte d'água; utilização de tubos de chumbo, barro cozido e pedra sabão para conduto de água e comercialização rápida do ouro, exigindo maior transparência do sistema colonial nos serviços públicos.


Construções públicas


Resumem-se em: os Fortes, já citados, casas de câmara e cadeia,raros palácios de governadores, conventos e igrejas. Esta última por ser braço ideológico da Coroa e responsável por todos encargos didáticos coloniais. São dotados das mesmas características dos Fortes : participação dos mais notáveis profissionais da época.
Os projetos (registro material) deveriam ser aprovados na Metrópole, e em Roma, quando edifícios religiosos.
A Casa de Câmara e Cadeia de OP tem uma fachada que lembra o antigo arquivo romano reformado por Michelângelo, em Roma. Tais prédios costumavam revitalizar o que de melhor se fazia na metrópole. Entretanto aparecem sinais de baixa qualidade dos artesãos: obras de cantaria limitadas aos cantos das paredes e aberturas de portas e janelas, coroando o arremate de paredes em alguns casos com suas cimalhas destacadas das faces polidas revestidas de cal e areia; atraso da mão-de-obra provocando paredes construídas com blocos irregulares de pedra cuja aspereza era desfarçada por sucessivas camadas de emboço, chegando a 5cm de espessura.
Mosteiro de São Bento, RJ: construção por mais de 200 anos e manutenção por mais de 400. Ótima síntese das técnicas construtivas utilizadas.
- Cisterna: deveria atender a todos os místeres do convento ser realizada à feição da adega (vazio retangular coberto por abóbadas de berço, cruzadas - antiga versão das "lajes cogumelo" e pouco usadas no Brasil- e apoiadas em colunas de pedras lavradas centrais, importadas da Metrópole. 
Pedra sabão = adaptação as condições adversas locais, por:
- Corte de pedras no país ( calcários, arenitos e granitos)
- sua maciez e facilidade de ser trabalhada com instrumentos de entalhar madeira (limitação de instrumentos de aço)
Os ornamentos da igreja quase todos em madeira, com exceção daqueles destinados ao abastecimento hidráulico, tem em suas pinturas, douração e estofamentos concentradas quase toda criatividade e o que de melhor se produziu por aqui.



Construções da sociedade civil 



As residências, classe dirigente ou pobre, livre ou escrava, e instalações (casas de farinha, moinhos hidráulicos de milho, igrejas de povoados pobres) onde se expressa a capacidade de adaptação ao novo ambiente.
Classe dirigente = habitações urbanas ou rurais que mais abrangem as tradições européias. 
- Disposição dos espaços e utilização de materiais (Nordeste): 
* térreo (pedra-canjica)= armazém
* andar superior (pau-a-pique)= instalação da família
* cômodos enfileirados sem luz natural, por serem sobrados geminados.
* terceiro andar (sob telhado - resumido ao atravessamento de pesadas terças, pois dois panos: um derramando água sobre a rua e outro sobre os fundos do terreno) = escravos domésticos
- A construção evita rincões
- Ausência de calhas metálicas = dificuldade de estanqueidade diante das chuvas tropicais, o que explica o revestimento azulejado das paredes (alta impermeabilidade)
Casas modestas (pequenos funcionários e comerciantes ou artesãos) =
- térreas;
- alvenaria de pedra ou tijolo ou com estrutura em "gaiola" (paredes de pau-a-pique) - técnica elaborada, largamente usada leve e durável : trama de paus verticais com as pontas em forma de lança mergulhando em furos dos baldrames (vigas horizontais de madeira amarradas aos esteios verticais). Sobre os piques (enxaiméis) fixam-se as ripas horizontais formando um gradeado trançado preenchido com barro (argila corrigida com areia, palha ou esterco de vaca, para previnir retrações por perda d'água). Deve não ter contato com o solo e proteger-se diretamente da chuva.
- grande degradação pelo fato do baldrame estar apoiado diretamente no solo = apodrecimento
- barro convenientemente dosado
- nível social : paredes mais ricas (ripas cravejadas) e mais pobres (cravos substituídos por embiras - técnica indígena: sapé)
Taipa de pilão (técnica que caracterizou áreas onde o povoamento devia aos colonos), consiste em: depositar terra em camadas de 10 a 15cm em formas de madeira (taipais) e comprimi-la pelo movimento ritmado do pilão de madeira.
- Não se corrigia o teor de argila, verificando-se posteriormente, ser um monolito quando a terra utilizada já contém areia ou pedrisco fino = extremamente resistente às intempéries e de difícil desmonte.
- Abertura de gretas e ruína da estrutura = quando a argila não possui materail antiplástico, marcando e separando as sucessivas camadas de terra.



Algumas palavras encontradas no decorrer da minha leitura:


envasadura
1. Vão (2) aberto nas paredes para colocação de portas e janelas, mais comumente usado para referir-se às paredes externas. 2. Envasamento, embasamento (1).
cunhal 
s. m.
1. Ângulo saliente formado por duas paredes de um edifício.
2. Esquina.
estereotomia 
(estereo- + -tomia)
s. f.

Arte de dividir e cortar regularmente os materiais de construção.
ombreira
Cada uma das duas peças verticais fixas, das portas e janelas, que sustentam as vergas ou padieiras, nos marcos (2) ou caixões. Pode ser embutida ou aparente na alvenaria. Quando aparente, é chamada de umbral. Também chamada portal.
padieira
1. O mesmo que verga de porta ou janela. Peça (1) disposta horizontalmente na parte superior, que solidariza ombreiras e sustenta a alvenaria acima do vão (2); também chamada travessa (3). Quando fica aparente na alvenaria também é chamada dintel (1). 2. Nos aros de pedra das antigasconstruções, face inferior da verga.
cavouco = cabouco 
s. m.
1. Fosso.
2. Escavação para assentamento de alicerces.
3. O espaço em que gira o rodízio dos moinhos.
vereda (ê) 
s. f.
1. Caminho estreito, atalho.
2. Fig. Rumo; direcção!.
3. Bras. Agrupamento de matas cercadas de campo.
picada 
(feminino de picado) 
s. f.
6. Infrm. Golpe com arma branca. = facada, navalhada
7. Atalho aberto com recurso a um instrumento de corte.
8. Caminho estreito por entre o mato.
mameluco 
(árabe mamluk, escravo, pagem, criado) 
s. m.
1. Soldado de uma milícia turco-egípcia, originariamente formada por escravos.
2. Bras. Mestiço, geralmente filho de branco e de mulher índia. = caboclo
ronceiro 
adj.
1. Vagaroso; lento; mandrião.
2. Indolente, pachorrento.
vau
s. m.
1. Ponto onde, numa corrente de água, se pode passar a pé ou a cavalo.
longarina 
s. f.
Cada uma das vigas longitudinais em que assenta o tabuleiro de uma ponte, o mecanismo de uma locomotiva, o estrado de um automóvel, etc.
tabuleiro 
(latim tabula, -ae, tábua + -eiro) 
s. m.
8. Constr. Pavimento de uma ponte.
esteio 
s. m.
1. Peça para escorar; escora.
2. Fig. Amparo; sustentáculo.
aduela (é)
s. f.
1. Tábua ou fasquia preparada para vasilhame.
2. Lanço, ou fiada interior, das pedras do arco de uma abóbada, etc.
3. Cada uma dessas pedras.
4. Tábua que forra o vão da ombreira das portas.
5. Abertura do ferro engatado no extremo da haste do saca-trapo.
6. Muro de suporte de um tanque.
pegão (è) 
s. m.
1. Grande pilar ou suporte.
2. Grande pé-de-vento.
3. Pego grande e muito fundo.
tramo 
s. m.
2. Cada uma das partes em que se divide o tabuleiro de uma ponte metálica.
lancil
s. m.
Pedra de cantaria, longa e estreita, que serve para peitoris, vergas de janelas, resguardo de estradas, etc.
paludoso (ô) 
(palude + -oso) 
adj.
1. Que tem pauis. = pantanoso
2. Que provém de pauis.
3. Causado pelas emanações dos pântanos.
adução 
s. f.
2. Hidrául. Acção! de derivar as águas de um lado para o outro.
cimalha 
s. f.
1. Parte mais alta da cornija.
2. Moldura que remata o capitel.
3. Saliência (no alto da parede) em que assentam os beirais do telhado.
paramento 
s. m.
1. Adorno, enfeite.
2. Arquit. Face polida de uma peça de pedra ou de madeira destinada para a construção.
3. A face de uma peça de madeira destinada à construção, ainda que não seja polida.
emboço (ô) 
s. m.
Primeira camada de cal ou de argamassa que se põe na parede em bruto.
alfaia
s. f.
1. Utensílio de adorno, tanto de casas como de pessoas.
2. Adorno.
3. Baixela.
4. Jóia!.
5. Paramento de igreja.
6. Utensílio de lavoura.
Plural: emboços |ô|.
egrégio 
(latim egregius, -a, -um) 
adj.
Que inspira grande admiração. = ilustre, insigne, nobre, notável
reinol 
(reino + -ol) 
adj. 2 g.
1. Próprio do reino. = reinícola
2. Natural do reino. = reinícola
3. Diz-se de uma variedade de ameixa.
4. Diz-se de crioulo de base portuguesa, falado no Sri Lanka (antigo Ceilão) e na costa ocidental da Índia.
s. 2 g.
5. Indivíduo natural do reino.
Plural: reinóis.
fasquia 
s. f.
1. Tira comprida e estreita de madeira; ripa.
2. Barra (de salto em altura e de salto com vara).
gretar 
v. tr.
1. Abrir greta em.
v. intr. e pron.
2. Fender-se, rasgar-se em gretas.
3. Estalar



Fontes:


Sistemas Construtivos Coloniais - Júlio Roberto Katinsky


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Um comentário:

  1. pelo amor, não da pra ler com esse layout de cores

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